A
Acupuntura é uma terapêutica
milenar que utiliza agulhas, moxas e outros instrumentos para
liberar substâncias químicas no organismo com
efeito analgésico e/ou antiinflamatório e assim,
aliviar dor e outros sintomas decorrentes de determinadas doenças.
A denominação Acupuntura é atribuída
a um jesuíta europeu no século XVII que adaptou
os termos chineses Zhen Jiu, juntando as palavras latinas Acum
(que significa agulha) e Punctum (picada ou punção).
A tradução literal, no entanto, é bem
diferente. O correto seria Zhen (agulha) e Jiu (moxa). A moxa
ou mogusa (termo de origem japonesa) é confeccionada
com as folhas secas da planta Artemisia sinensis, usada na
moxibustão, ou seja, queima de pequenas porções
desse vegetal associada ao tratamento com as agulhas.
Uma apresentação da acupuntura
A acupuntura é um método
terapêutico antigo, utilizado há aproximadamente
5000 anos no oriente. Foi criada na China, sendo mais tarde
incorporada ao arsenal terapêutico da medicina em outros
países orientais como o Japão, Coréia
e Vietnã.
Achados arqueológicos da Dinastia
Shang (1.766 - 1123 AC) incluíam até agulhas
de acupuntura e carapaças de tartarugas e ossos, nos
quais estavam gravadas discussões sobre patologia médica.
Mas o primeiro texto médico conhecido e ainda utilizado
pela Medicina Tradicional Chinesa é o Tratado de Medicina
Interna do Imperador Amarelo (Nei Jing Su Wen), escrito na
forma de diálogo entre o lendário Imperador Amarelo
(Hwang-Ti) e seu ministro, Qi Bha, sobre os assuntos da medicina,
segundo alguns autores durante a Dinastia Chou (1122 – 256
AC). Outros textos clássicos surgiram posteriormente,
entre eles a Discussão das Doenças Causadas pelo
Frio, O Clássico sobre o Pulso, O Clássico das
Dificuldades (Nan Ching) e o Clássico sobre Sistematização
da Acupuntura e Moxa.
A palavra acupuntura origina-se do latim,
sendo que acus significa agulha e punctura significa puncionar.
A acupuntura se refere, portanto, à inserção
de agulhas através da pele nos tecidos subjacentes em
diferentes profundidades e em pontos estratégicos do
corpo para produzir o efeito terapêutico desejado. Mas,
na verdade, acupuntura é uma tradução
incompleta da palavra chinesa Jin Huo (ou Tsen Tsio) que significa
metal e fogo. Para tornar uma longa história curta:
os pontos de acupuntura distribuídos pelo corpo podem
ser puncionados com agulhas ou aquecidos com o calor produzido
pela queima da erva Artemisia vulgaris, (mais conhecida como
moxa ou moxabustão). Podem ainda ser estimulados por
ventosas, pressão, estímulos elétricos
e, mais recentemente, lasers. Acupuntura e moxabustão
fazem parte da chamada Medicina Tradicional Chinesa que inclui
ainda uma fitoterapia bastante sofisticada.
Os chineses, ao longo destes milhares
de anos, descreveram cerca de 1.000 pontos de acupuntura, dos
quais 365 foram classificados em catorze grupos principais.
Todos os pontos que pertencem a um dos grupos são ligados
por uma linha imaginária na superfície do corpo
denominada meridiano. Os doze meridianos principais controlam
o pulmão, o intestino grosso, o estômago, o baço,
o coração, o intestino delgado, a bexiga, o rim,
o pericárdio, o “triplo-aquecedor”, a vesícula
e o fígado. Existem também dois meridianos localizados
no centro do corpo, um que passa pela frente e outro pelas
costas. Todos os pontos de acupuntura ao longo |
destes
meridianos afetam o órgão mencionado, mas não
necessariamente da mesma maneira. Para os chineses tradicionais,
nosso organismo é formado de matéria e energia
e é justamente a parte energética, a força
vital ou Chi que circularia nestes meridianos e todas as doenças
seriam conseqüentes a um distúrbio da circulação
do Chi. Embora
este conceito tenha norteado a prática
da acupuntura ao longo destes milhares de anos é um
pouco metafísico demais para ser compreendido e aceito
pelo mundo científico atual.
Evidências científicas acumulam-se
acerca da eficácia da acupuntura, e a intimidade de
seu mecanismo de ação está sendo pesquisada
em muitos centros médicos do mundo, incluindo Escolas
Médicas e Hospitais Universitários na China e
no nosso próprio país. No Brasil, a acupuntura
foi recentemente considerada uma especialidade médica
pelo conselho Federal de Medicina (CFM) e pela Associação
Médica Brasileira (AMB), tendo sido realizado, em outubro
de 1999, o primeiro concurso para o Título de Especialista
em Acupuntura, no qual mais de 800 médicos foram aprovados.
No Ocidente, a acupuntura ganhou credibilidade
principalmente por seu efeito no alívio da dor, seja
ela de várias origens. Esta é uma das razões
para a ênfase atual da pesquisa no estudo dos mecanismos
analgésicos da acupuntura. O foco de atenção
tem sido o papel dos opióides endógenos neste
mecanismo. Ao longo de sua evolução, o cérebro
desenvolveu sistemas complexos de modulação (aumentar
ou diminuir) da percepção da dor. Em especial
o sistema opióide (semelhante à morfina) e o
sistema não opióide de analgesia (os neurotransmissores)
suprimem a percepção da dor, enquanto que o sistema
antiopióide (por ex., colecistoquinina) trabalha contra
a analgesia opióide. Opióides são liberados
durante acupuntura e a administração prévia
de naloxona (droga bloqueadora que reverte os efeitos da heroína,
morfina e de outras drogas semelhantes) anula o efeito da acupuntura;
porém se a acupuntura for realizada previamente à administração
de naloxona não há bloqueio do seu efeito. Além
disto observou-se aumento da concentração de
endorfinas e também de serotonina no líquido
cefaloraquidiano de doentes submetidos à acupuntura.
Mas a acupuntura não causa apenas
um efeito analgésico, ela provoca múltiplas respostas
biológicas. Estudos em animais e humanos mostram que
o estímulo por acupuntura pode ativar o hipotálamo
e a glândula pituitária, resultando num amplo
espectro de efeitos sistêmicos, aumento na taxa de secreção
de neurotransmissores e neurohormônios, melhora do fluxo
sanguíneo, e também a estimulação
da função imunológica são alguns
dos efeitos já demonstrados.
A Organização Mundial da
Saúde lista mais de 40 doenças para as quais
a acupuntura é indicada. Para os chineses tradicionais
existem cerca de 300 doenças tratáveis por acupuntura,
entre elas, sinusite, rinite, resfriado, faringite, amigdalite
aguda, zumbido, dor no peito, palpitações, enfizema,
bronquite crônica, asma brônquica, alterações
menstruais, cólica menstrual, lombalgia durante a gravidez,
ansiedade, depressão, insônia, mal-estar provocado
pela quimioterapia, dores associadas com câncer, tendinites,
fibromialgia, dores pós-cirúrgicas, síndrome
complexa de dor regional, dermatites, gastrite, úlcera
gástrica, úlcera duodenal, colites, diarréia,
constipação, cefaléias, enxaqueca, paralisia
facial, seqüelas de acidente vascular cerebral, lombalgia,
ciatalgia, artrose, artrite, entre tantas outras.
A pesquisa em acupuntura é importante
não apenas para elucidar os fenômenos associados
ao seu mecanismo de ação mas também pelo
potencial para explorar novos caminhos na fisiologia humana
ainda não examinados de maneira sistemática. |