Enquanto esperamos a definição dos destinos do Colégio Médico de Acupuntura (CMA) podemos aproveitar para iniciar a discussão sobre um tema de grande importância: a formação do especialista em Acupuntura e a prova para o TEAC.
Não há dúvidas que o objetivo balizador de nossa conduta deve ser estabelecer a relação estreita e específica entre o conteúdo mínimo necessário para prática de uma Acupuntura eficaz e segura e os requisitos solicitados na prova de titulação, contudo, a dificuldade está no acordo do que se considera realmente essencial no aprendizado e o que deve ser avaliado para o TEAC.
As provas para título de especialista tem priorizado os contextos clássicos da MTC na compreensão das enfermidades e seus tratamentos, acrescidos de algumas poucas informações médicas ocidentais. Isso nos faz crer que os examinadores, que até então estruturaram esses exames, consideram esse tipo de informação como essencial para a prática da Acupuntura que se pretende segura e eficaz.
Com intenção de não assumir uma posição demasiado simplista a favor ou contra dessa concepção, farei algumas considerações que talvez ajudem iniciar a discussão sobre possíveis causas de conflito entre os cursos de especialização e realizadores de provas, ou entre conteúdo e requisição para o TEAC.
Todos
sabemos que, tradicionalmente, a Acupuntura é parte
da Medicina Tradicional Chinesa (MTC) e que,
portanto, tem como fundamentos o mesmo corpo
doutrinário dessa cultura médica
milenar. Porém, o que muitas vezes deixamos
de considerar, é o quanto esses conceitos
originais sofreram modificações
ao passar por culturas diferentes, e o quanto
foram distorcidos sobretudo em sua transposição
para o Ocidente. As barreiras culturais e lingüísticas
facilitaram o surgimento de interpretações
pessoais não raro acrescidas de conteúdos
místicos e de imensa subjetividade na
aplicação clínica. Como
agravante somou-se a profusão de erros
de tradução ou mesmo de conceito
dos autores de obras disponíveis, sobretudo
em língua portuguesa, o que amplia claramente
o risco de se embasar a aplicação
do método em crenças ou pensamentos
mágicos sem correlação
clara com o fato observado. Por
outro lado, a Acupuntura adquiriu uma fundamentação
específica a partir da aplicação
do método científico de estudo
que vem demonstrando, de forma irrefutável,
que o estímulo neuronal é a
razão principal ou mesmo exclusiva
do efeito biológico da Acupuntura.
Esse fato comprovado oferece novo parâmetro
para compreensão e esclarecimento
dos conceitos tradicionais (MTC) de fisiologia,
fisiopatologia e mecanismo de ação
da Acupuntura. Qual é a natureza do “Qi” que se “esgota” ou deixa de circular quando se afeta uma via nervosa relativa a um ponto qualquer, seja por lesão da estrutura neural, uso anestésico ou mesmo um antagonista opióide? Talvez essa “Natureza Qi” (conceito), mais ponderável e menos subjetiva possa ser aceita de maneira universal como base de conceituação por todas as escolas, independente da manutenção de suas peculiaridades, e favoreça assim a construção de um arcabouço mínimo para formação do especialista e também para o perfil das provas de título. Não se trata aqui de mera modernização da linguagem ou crítica ao conhecimento ancestral, mas sim a busca de uma compreensão ampla e segura dos sinais e sintomas, suas origens fisiopatológicas e a possibilidade real de influenciá-los através da Acupuntura. Assim exposto, algumas propostas para um currículo mínimo serão aqui apresentadas para avaliação e crítica de todos: • Substratos anatomofisiológicos e fisiopatológicos • Patologia - Clínica Médica – Propedêutica – Conhecimento detalhado das entidades nosológicas onde a Acupuntura é objetivamente efetiva • Estudo dos conceitos da MTC com correlação clínica objetiva demonstrável • Descarte ou avaliação crítica dos conteúdos da MTC que se mostram contraditórios em suas origens ou publicações conflitantes • Correlação da neuroanatomofisiologia com o conceito de Meridianos e pontos da Acupuntura • Tratamento das patologias • Metodologia do trabalho científico e da avaliação das publicações médicas. Seguramente muito mais pode ser avaliado, mas para esse momento que sirva pelo menos como estímulo à crítica e ponderação sobre o tema. |